Só um pedaço de prata vagabunda

“Porque você está usando aliança? Tá namorando?” Não, estou com saudade “De mim?” Não, de usar aliança mesmo, sabe? De ficar rodando ela quando não tenho o que fazer, é só saudade “Mas você tá namorando? Tá amando alguém? Que não seja eu?” Não, não estou…Olha, na verdade estou sim. Estou me amando, sabe? Cansei de esperar que tudo mudasse ou que o tempo voltasse e a gente se amasse de novo como duas almas juvenis sedentas de calor. “Mas nós não somos mais essas almas sedentas?” Não… “Pode falar a verdade, você está de aliança porque sente  saudades de nós” E se for? O que muda? Vai continuar sendo uma aliança de um relacionamento antigo, que não deu certo, que doeu. É só um pedaço de prata vagabunda e que eu estava sentindo falta entre os meus dedos. “Volta pra mim?”  Você vai me dar uma aliança nova? “Posso dar, você quer?” Não, melhor não…Não quero. “Não quer o quê? A  aliança ou eu?” 

Silêncio.

E eu detestava esse silêncio. Essa fração de segundo onde tudo que tinha que ser dito estava no brilho do olhar, onde as mãos tentam se tocar e o estômago gela. A vontade de abraçar e a de fugir se mesclam num paradoxo de sinergia. Mas as mãos não se tocam. O estômago volta a sua temperatura comum  e a vontade de abraçar dá lugar a uma repugnância sem tamanho. Uma ânsia gigantesca onde eu gorfaria todas as palavras doces que um dia fui capaz de proferir pra tal ser.

“Um dia desses vi que você tava ouvindo Skid Row, pensei que não gostasse” Gosto das mais famosas, sabe? In a Darkned Room, Wasted Life…essas mais manjadas mesmo. É fossa demais pra eu me aprofundar nesse tipo de coisa.

“Porque você não fala a verdade?”

Nessa hora eu queria mesmo dizer a verdade. Todas aquelas que ele merece ouvir e eu nunca tive coragem e momento mais propício. Mas onde é que a coragem se esconde quando aqueles olhos me olham? Quando aquele cabelo comprido se movimenta e aquele sorriso…ah, aquele sorriso se abre! Cadê a bendita/maldita coragem? 

Eu aprendi a gostar de Skid Row, Cinderella, Motley Crüe, Poison e todas essas coisas. Aliás, depois que saímos de um relacionamento a gente aprende tantas coisas. A se virar, se amar, se divertir. Tudo sem precisar de outro alguém. Egocentrismo? Talvez, porque não? Amor próprio bem dosado é o melhor que pode nos acontecer nessas horas.

Não sei se tenho pena ou digo “Bem feito” pra pessoas que ficam se martirizando com o fim de algum ciclo. A vida é cheio deles. Pensar que tudo é pra sempre é bonito, mas não condiz com a realidade. O que é pra sempre? O que é 100%? Não aceitar que tudo tem seu fim é tão bobo e inocente. Dói? Sim. Muito. Mas passa. Tudo passa. E eu estava esperando passar.

“Vai ter um show legal nesse sábado, você não quer ir comigo?” Esse sábado? Esse sábado não rola, já tenho um passeio marcado. “Com quem? Do que?”

Já reparou que quando as pessoas não aceitam o fim de um ciclo, ela fica curiosa em saber o que acontece? Porque? Pra que? Onde? Com quem? E isso não acontece só com o outro. Conosco também. Quantas vezes você se deparou vasculhando o que já não te diz mais respeito?

Declinei o convite. Certa de que o ciclo se fechou, que voltar atrás nem sempre é uma boa opção e que não é um sorriso, palavras bonitas e/ou presentes que fazem tudo de ruim se extinguir. 

Me despedi com educação e um sorriso no rosto. Tirei a prata vagabunda do dedo e joguei no fundo da bolsa. Fui embora com passos firmes e segura de mim. Segura da decisão. Se vou me arrepender? Não sei, talvez. E se essa não for a hora certa desse ciclo se fechar? Mas passa. Tudo passa. E eu estava esperando passar.

Iza Rodrigues

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4 thoughts on “Só um pedaço de prata vagabunda

  1. Lindo texto, Iza!! =D Independente de o conteúdo retratar algo pessoal ou não, suas palavras possuem alma, conseguiram me tocar!! Você conseguiu fazer meus olhos lacrimejarem!! (Tá… Sou uma chorona assumida!! – risos)

    Acho que fiquei sensibilizada com suas palavras porque me identifiquei com conteúdo, pois é transparente, verdadeiro.

    Você falou sobre ciclos. Isso remeteu-me ao Arcano do Tarot “A Roda da Fortuna” que é a eterna roda da vida que gira sem cessar, representando progresso e mudança, mas também a eternidade. Ela dá voltas e retorna ao mesmo lugar mostrando que tudo é passageiro, tudo é transitório, tudo é cíclico.

    Da mesma forma somos nós, seres humanos. Assim como o movimento contínuo e incessante do Arcano “A Roda da Fortuna” , nascemos, crescemos, amaduremos, morremos…

    Conhecemos belos lugares, pessoas encantadoras… Obtemos conquistas, derrotas… Sorrimos, choramos, nos alegramos, nos frustramos… E diante deste belo e singelo texto, pude reavaliar alguns aspectos de minha vida.

    Talvez, esteja na hora de virar a página e começar outro capítulo… =´)

    Fique com as Fadas….

    Beijinhos

  2. Ótimo texto!!!!parabéns 😉
    Me identifiquei muito com mulher que vc retratou ,pois é exatamente o que penso sobre ás pessoas que se martirizam após o fim de algo, seja relacionamento ou não.
    Que seja eterno enquanto dure.
    bjs

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